Especiais

40 anos do Revista Brasil: profundidade e dinamismo

ResumoO Revista Brasil, programa da Rádio Nacional, completa 40 anos em 2025 como referência em jornalismo público brasileiro. A trajetória, marcada pela profundidade analítica e dinamismo editorial, passou por Aécio Amado e Valter Lima, consolidando o formato de entrevistas e debates. A longevidade do programa evidencia a relevância do rádio público na formação de opinião crítica no país.

O Revista Brasil celebra 40 anos com a mesma busca por profundidade e dinamismo. De Aécio Amado a Valter Lima, veja a trajetória do programa que virou referência em jornalismo na rádio pública.

Dani Quaresma
40 anos do Revista Brasil: profundidade e dinamismo

40 anos do Revista Brasil: profundidade e dinamismo — Foto: Reprodução / Blog Sem Juízo

Busca por profundidade e dinamismo marca 40 anos do Revista Brasil

No dia 6 de agosto, o repórter sergipano Aécio Amado, de 35 anos, acordou pouco depois das 4h da madrugada e chegou às 5h, antes do raiar do dia, à redação da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, pronto para o que viesse. Ele iria estrear em um novo programa jornalístico, o Revista Nacional, e, dessa vez, falaria para o país inteiro.

O Revista Brasil, que celebra 40 anos em 2026, nasceu com uma lógica clara: trazer informações instantâneas, aprofundadas e entrevistas com duas horas de duração. O nome Revista Brasil veio depois, em 1998, mas a essência permaneceu a mesma ao longo das décadas.

O que mudou em 40 anos de Revista Brasil?

A busca por profundidade e dinamismo sempre guiou o programa. Desde os primeiros programas, o Revista chegava a mais de 30 milhões de pessoas. A transmissão não era feita apenas de Brasília, mas também do Rio de Janeiro e até do Amazonas, com mais de 200 emissoras ao vivo transmitindo desde o começo.

A estreia de Aécio Amado e a rotina de repórter

Era normal, na rotina de Aécio Amado, carregar a tiracolo uma montanha de fichas telefônicas, um pesado carregador de fita, bloco de anotações e canetas. Pesquisou o que acontecia no trânsito e nas delegacias. E não faltariam notícias, mesmo sendo em um Rio de Janeiro diferente, naquele "inverno" quente de 1986.

Na estreia do novo programa, deixou qualquer nervosismo de lado e ouviu o chamado do apresentador goiano Valter Lima, também de 35 anos, direto de Brasília. Acompanhou o que se passava pelo país na voz dos colegas.

A cobertura do naufrágio do Bateau Mouche IV

Quarenta anos depois e aposentado recentemente, Aécio garante que o dia a dia na rádio é sempre recheado de emoções fortes, como a que ocorreu em 1988, na véspera do Ano Novo. Ele foi acionado para cobrir o naufrágio do navio Bateau Mouche IV, que provocou a morte de 55 pessoas na Baía de Guanabara.

"Foi marcante e também muito triste. Quando cheguei, o portão do Salvamar, da Marinha, estava aberto. E vi os corpos chegando trazidos nas lanchas". O programa começou às 8h da manhã, mas o repórter já havia passado a noite em claro com as notícias tristes que chegavam. "Faz parte da vida do repórter", afirma.

Valter Lima e o projeto inovador da rádio

Quem conhece bem essa realidade é Valter Lima, que esteve à frente do programa nas últimas quatro décadas de forma ininterrupta. Ele foi contratado para ajudar na formulação de um "projeto inovador" para um programa que priorizasse informação e dinamismo por duas horas a cada dia. Também ficou conhecido entre os colegas por madrugar no estúdio em nome de dar notícia em primeira mão a partir da capital.

"Nasceu a proposta de utilizar a rádio como veículo de aprofundamento das questões políticas, econômicas, sociais, internacionais e humanísticas", afirmou Lima.

Os desafios históricos: Constituinte, cólera e Eco 92

Segundo Valter Lima, um dos primeiros grandes desafios do programa foi traduzir ao público as discussões dos parlamentares para a formulação da Constituição de 1988. Ele recorda que tinha acesso a diferentes fontes de informação nessa época, em função de que, nas coberturas, chegou a participar, antes de 1985, do Movimento das Diretas Já.

Da Amazônia, outro desafio foi a cobertura da primeira epidemia do cólera no país, em 1991. A equipe se deslocou para diferentes pontos da Amazônia para registrar o problema. No ano seguinte, ele considerou também histórica a cobertura da "Eco 92", Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento realizada no Rio de Janeiro de 3 a 14 de junho daquele ano.

A responsabilidade da comunicação pública

"A equipe do Revista Brasil sabe da responsabilidade que é veicular conteúdos a partir de uma emissora pública porque esse material é replicado dentro e fora do Brasil graças à credibilidade que todos nós construímos. Não podemos falhar".

A chacina da Candelária, em julho de 1993, quando oito crianças e adolescentes foram mortos em frente àquela igreja no centro do Rio, também sensibilizou o experiente jornalista. "Essa história tocou no coração da gente". Ele lembra os detalhes de quando recebeu as primeiras notícias dos jovens.

A trajetória pessoal de Valter Lima

A juventude, em particular, é um tema que sempre tocava o apresentador. Ele lembrou de quando saiu de Anápolis (GO) para tentar a vida em Brasília. Alistou-se como soldado da Aeronáutica e fazia bicos de locutor na rodoviária, no centro da capital. Em um desses anúncios, diretores de rádio queriam saber mais daquele vozeirão.

"Queria ganhar um dinheirinho para estudar". De repente, já trabalhava na Rádio Alvorada. Depois, para a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), foi um pulo. Finalmente, teve a carteira assinada. Mais do que o sucesso profissional, orgulha-se de ter sido ouvido na rádio de pilha pelo pai, Adão, pedreiro, e pela mãe, Dalva, ambos já falecidos.

"Fico orgulhoso de ser parte da história da comunicação pública".

A produtora Fátima Araújo e a transformação digital

Nem todos que se dedicam à rádio foram aos microfones. Entre essas pessoas, a produtora Fátima Araújo chegou à empresa em 1977. Ela começou como auxiliar administrativa da Rádio Nacional da Amazônia. De repente, passou a entrar nos estúdios. Inicialmente, recebia as cartas dos ouvintes para selecionar e serem lidas no programa.

Chegava de tudo, inclusive perfumadas com talco ou objetos de recordação: informações, pedidos e sugestões de mais pautas. "O Valter chegava muito cedo. Antes de todos. Acendia e apagava as luzes da rádio à noite".

A internet mudou a forma de interação desde o final dos anos 90. As cartas perfumadas deram lugar a e-mails que lotaram a caixa de entrada e "a mensagens o tempo inteiro". "Mas a correria nunca mudou", diz a produtora.

Perguntas Frequentes

Quando o Revista Brasil foi criado?

O programa foi criado em 1986 com o nome Revista Nacional, na Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Em 1998, passou a se chamar Revista Brasil.

Quem apresentou o Revista Brasil por 40 anos?

Valter Lima esteve à frente do programa nas últimas quatro décadas de forma ininterrupta, desde a estreia em 1986.

Qual a proposta original do programa?

A proposta era utilizar a rádio como veículo de aprofundamento das questões políticas, econômicas, sociais, internacionais e humanísticas, com duas horas de duração por dia.

Quantas emissoras transmitiam o Revista Brasil?

Mais de 200 emissoras ao vivo transmitiam o programa desde o começo, alcançando mais de 30 milhões de pessoas.

Como a internet mudou a interação com os ouvintes?

As cartas físicas, que vinham até perfumadas com talco, deram lugar a e-mails e mensagens em tempo inteiro, mas a correria da produção nunca mudou.

Dani Quaresma

Editoria Especiais

Dani Quaresma cobre o setor de meios de pagamento e crédito no Blog Sem Juízo. Análises técnicas, sem viés comercial.